
Comentário publicado na Revista Genau Hier, no mês de junho de 2009 (ao lado, versões em alemão e inglês):
Internetês
Errado ou diferente?
Vivemos num mundo globalizado, porém cheio de diferenças. Diferenças de geografia, clima, idiomas, raças, credos, sexo..., contemplando uma grande variedade que nos produz como pessoas que comparam, ou seja, vivem das diferenças. Tudo o que precisamos aprender na vida, em qualquer lugar do mundo, iniciamos desde a tenra idade: compartilhar, somar, dividir, jogar dentro da regra, devolver as coisas, dar as mãos, desenhar, pintar, brincar dentro de uma conduta... Assim, aprendemos a ser ‘livres’, reguladamente livres. Ou seja, somos indivíduos que aprendem posturas e princípios. Isso é preciso para se viver em sociedade. Mas e para escrever? Também não é diferente. Somos dependentes da produção da língua em que todos estamos inseridos na escola.
É inegável assim, que ser diferente do que a Escola aplica pode gerar um sentimento de ansiedade. Por exemplo, se lemos um texto que sai da “regra” como o“internetês” (linguagem ou forma de expressão grafolinguística utilizada na comunicação de jovens na Internet), é estranho. É diferente. É criativo. Mas será errado?
Como ser criativo na produção de textos escolares com tantas regras? Não é fácil. Precisamos, juntamente com a necessidade de rabiscar palavras no terrível papel em branco, cuidar para que a letra seja legível, que a ortografia e a gramática sejam corretas. Há muitas coisas importantes para serem administradas antes de ser criativo.
Criativo na escola, então, não passa de expressar tempos verbais ou pronomes como uma demonstração de “intromissão” nos mecanismos da escrita formal. Mas sabemos que a linguagem se refaz a cada instância criando heterogeneidade e singularidade pelo uso. É uma relação, uma vivência do sujeito-linguagem com erros, falhas e irregularidades. Por que, então, na produção textual escolar, as irregularidades, as trocas, as flexões, o diferente é considerado desconhecimento da língua ou um erro? Vejamos que se olharmos conforme expressa Stuart Hall (Cultural Representations and Signifying Pratices, 1997), os signos escritos não mantém semelhança com aquilo que se referem. As letras da palavra ESCOLA, por exemplo, não se parecem com a forma que vemos de nenhuma escola, nem mesmo o som da palavra “escola” soa como uma escola “real”. Assim sendo, a relação que se tem com o signo, seu conceito e objeto referido é inteiramente “aprendido” pela vontade da língua. Com o exposto, não quero aqui propor uma anulação das regras através do “internetês”. Contudo vislumbrar as flexibilizações para não restringir a criatividade do sujeito à linguagem, e promover uma relação do sujeito com a palavra. A partir daí, a presença da regra é posta em jogo pelo educador.
Vejamos que alguns textos do “internetês”, os signos utilizados não fogem completamente do que é ditado pela língua. São utilizados abreviaturas (aleatórias, é claro) e sinais que significam conceitos e palavras das nossas representações atuais. É claro, não aqueles legitimados pela gramática, mas também não incompreensíveis a qualquer leitor. Seria um desabrochar da diferença não sendo tão diferente assim? É um momento de transformação? Esse fato, tanto como a evolução do homem expressa por Darwin, se desenrola? A língua também segue esse curso de evolução?
É possível que seja uma mudança que faz parte da evolução e, possível também, que precise de acompanhamento e orientação, mas não de repulsa. Realmente é uma escrita bem diferente. É estranha ao ler. Porém, se pensarmos que toda a nossa existência pode ser escrita, descrita, contada, lida, também pela Internet e não só em livros e cadernos, poderemos ver que somos seres de transformação de leitura e linguagem, de palavras e de textos. Somos mesmo um discurso ou um livro, independente da grafia ou gramática.
Denise Preussler dos Santos
Jornalista
Mestranda em educação
Errado ou diferente?
Vivemos num mundo globalizado, porém cheio de diferenças. Diferenças de geografia, clima, idiomas, raças, credos, sexo..., contemplando uma grande variedade que nos produz como pessoas que comparam, ou seja, vivem das diferenças. Tudo o que precisamos aprender na vida, em qualquer lugar do mundo, iniciamos desde a tenra idade: compartilhar, somar, dividir, jogar dentro da regra, devolver as coisas, dar as mãos, desenhar, pintar, brincar dentro de uma conduta... Assim, aprendemos a ser ‘livres’, reguladamente livres. Ou seja, somos indivíduos que aprendem posturas e princípios. Isso é preciso para se viver em sociedade. Mas e para escrever? Também não é diferente. Somos dependentes da produção da língua em que todos estamos inseridos na escola.
É inegável assim, que ser diferente do que a Escola aplica pode gerar um sentimento de ansiedade. Por exemplo, se lemos um texto que sai da “regra” como o“internetês” (linguagem ou forma de expressão grafolinguística utilizada na comunicação de jovens na Internet), é estranho. É diferente. É criativo. Mas será errado?

Como ser criativo na produção de textos escolares com tantas regras? Não é fácil. Precisamos, juntamente com a necessidade de rabiscar palavras no terrível papel em branco, cuidar para que a letra seja legível, que a ortografia e a gramática sejam corretas. Há muitas coisas importantes para serem administradas antes de ser criativo.
Criativo na escola, então, não passa de expressar tempos verbais ou pronomes como uma demonstração de “intromissão” nos mecanismos da escrita formal. Mas sabemos que a linguagem se refaz a cada instância criando heterogeneidade e singularidade pelo uso. É uma relação, uma vivência do sujeito-linguagem com erros, falhas e irregularidades. Por que, então, na produção textual escolar, as irregularidades, as trocas, as flexões, o diferente é considerado desconhecimento da língua ou um erro? Vejamos que se olharmos conforme expressa Stuart Hall (Cultural Representations and Signifying Pratices, 1997), os signos escritos não mantém semelhança com aquilo que se referem. As letras da palavra ESCOLA, por exemplo, não se parecem com a forma que vemos de nenhuma escola, nem mesmo o som da palavra “escola” soa como uma escola “real”. Assim sendo, a relação que se tem com o signo, seu conceito e objeto referido é inteiramente “aprendido” pela vontade da língua. Com o exposto, não quero aqui propor uma anulação das regras através do “internetês”. Contudo vislumbrar as flexibilizações para não restringir a criatividade do sujeito à linguagem, e promover uma relação do sujeito com a palavra. A partir daí, a presença da regra é posta em jogo pelo educador.
Vejamos que alguns textos do “internetês”, os signos utilizados não fogem completamente do que é ditado pela língua. São utilizados abreviaturas (aleatórias, é claro) e sinais que significam conceitos e palavras das nossas representações atuais. É claro, não aqueles legitimados pela gramática, mas também não incompreensíveis a qualquer leitor. Seria um desabrochar da diferença não sendo tão diferente assim? É um momento de transformação? Esse fato, tanto como a evolução do homem expressa por Darwin, se desenrola? A língua também segue esse curso de evolução?
É possível que seja uma mudança que faz parte da evolução e, possível também, que precise de acompanhamento e orientação, mas não de repulsa. Realmente é uma escrita bem diferente. É estranha ao ler. Porém, se pensarmos que toda a nossa existência pode ser escrita, descrita, contada, lida, também pela Internet e não só em livros e cadernos, poderemos ver que somos seres de transformação de leitura e linguagem, de palavras e de textos. Somos mesmo um discurso ou um livro, independente da grafia ou gramática.
Denise Preussler dos Santos
Jornalista
Mestranda em educação
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