Cresci com a percepção de que “é na escola que se aprende”. Ou seja, é a Pedagogia escolar o processo único e verdadeiro do aprendizado. Fiz jornalismo e novas percepções foram desencadeadas. Como mãe, sempre estive (e estou, bem menos que antes, é claro, já que só tenho mais uma filha adolescente) presente nas atividades e vivências escolares dos meus filhos. Contudo, mesmo com a clareza de que o “que se aprende na escola é importante”, o processo escolar parecia-me conturbado e conflituoso com a evolução da vida e das sociedades. Não pude evitar em traçar um paralelo da educação escolar com minha vida profissional de jornalista. Isso, porque, vi, escrevi e fotografei sobre fatos, assuntos e interesses nas cercanias vivenciadas, e percebi que aprendia coisas diversas a cada instante e, por conseguinte, ao repassar o que via, ensinava através de meus textos, imagens, manchetes etc.
Vi que aquilo que me rodeava estava a ensinar algo, estava a ‘pedagogizar’ maneiras, modos, culturas... jeitos de ser, pensar e estar no mundo. Vi que uma foto de revista institucional (aquelas que são produzidas por instituições e entidades sem valor de venda, fazendo uma ‘auto-propaganda’ de ideias e ações, e são encontradas na sala de espera das fábricas), por exemplo, me ensinava às maneiras de ser, ver, estar e trabalhar numa determinada instituição ou num setor social.
Com esse entendimento percebi as múltiplas formas de pedagogia, que o conteúdo de um jornal ou uma revista podia 'ensinar' e, que havia “trilhas” paralelas entre as capacitações recebidas na escola e as capacitações “exigidas” no mundo do trabalho. Na busca do entendimento dessas e de outras questões, ingressei no mestrado em Educação, outra área para além daquela da minha graduação, que se tornara fonte de curiosidade e, até, necessidade. Nesse Pós, vivenciei novas realidades, li uma infinidade de autores que não tinha lido até então, e passei a conviver com o entendimento de que o aprendizado vai além das classes escolares...nas revistas também.
É, no mínimo, intrigante pensar em pedagogização pelas revistas, mas não é um assunto novo. Steinberg e Kincheloe (2001), ao estudarem os processos implicados na construção das culturas infantis, cunharam o termo pedagogia cultural ao se referirem a outros lugares onde a educação poderia acontecer: bibliotecas, cinema, TV, esportes, livros, jornais, revistas etc. Com tal concepção, os autores possibilitaram a ampliação do conceito de pedagogia, e indicaram a importância da inclusão dos textos da mídia como campo de produção (e atuação) pedagógica. Silvio Gallo, no livro “Deleuze & a Educação” (2008), expressa que o “aprendizado não pode ser circunscrito nos limites de uma aula, da audição de uma conferência, da leitura de um livro; ele ultrapassa todas essas fronteiras, rasga os mapas e pode instaurar múltiplas possibilidades” (p.85).
Nesse sentido, então, as revistas (que assim como os jornais estão inseridas no conjunto de práticas da mídia) são mais do que meros objetos para 'passar o tempo'. Ou seja, elas se constituem em um meio pedagógico, pois transmitem saberes e conhecimentos que moldam o comportamento dos sujeitos. Prestem atenção nas imagens e textos de uma revista qualquer, onde é possível perceber que, a partir das representações produzidas e veiculadas são reforçadas ou contestadas algumas verdades acerca do mundo, dos modos de compreendê-lo, das maneiras de falar sobre ele, de nós mesmos e dos outros.
Assim, é possível que pensemos sobre as revistas para compreender os seus alcances, seus apelos, seus valores, suas compreensões, seus posicionamentos políticos, seus papéis sociais constitutivos etc. Esse processo acontece, inclusive, nas revistas institucionais. Ou seja, são expostos aos leitores da revista o que a instituição ou entidade pensa que a indústria, o comércio, o transporte etc. deve ser, quais os desejos e expectativas que a instituição/entidade tem para os profissionais ou pessoas envolvidas naquele determinado setor. E, ainda, que através da experiência da leitura nas revistas, os seres humanos também podem orientar os seus pensamentos e suas condutas, pois são ensinados e pedagogizados através das representações ali contidas para se posicionarem como sujeitos pertencentes à determinada situação social.