A gastronomia funcional ingressou nos
meus estudos há pouco tempo. Ela compõe uma nova proposta alimentar, isto é,
uma releitura gastronômica. É um processo em que existe a preocupação
nutricional a partir do conhecimento científico, da composição dos alimentos (com
micro, macronutientes e substâncias bioativas), do cuidado com as técnicas de
preparo, utensílios e materiais utilizados no preparo dos alimentos e, os
aspectos culturais associados ao ato de se alimentar. Ou seja, uma sinergia da
arte de cozinhar, do prazer de comer e da transformação das preparações levando
em conta o ponto de vista nutricional. Parece-me, de certo modo, que é voltar
aos ditos da Idade Média quando se comia para viver ao invés de viver para
comer.
Bom, iniciei o curso por vários
motivos: porque gosto de estudar, tenho curiosidade sobre as coisas e, entendo
que a culinária (que é uma parte da gastronomia), antes de ser a arte de
cozinhar, é uma forma de carinho, de preocupação e de demonstração de amor.
Digo isso por conta de que, quando estou dedicada a tal atividade, me percebo, a cada
prato que faço e (re)invento, pensando tanto nos ingredientes e suas agregações,
como nas pessoas para as quais eu cozinho...será que vão gostar, se o resultado
os fará feliz, se fará bem para a sua saúde....enfim.
Mas, preciso confessar que iniciei o
curso não esperando grandes novidades agregadoras ao meu ‘conteúdo’ culinário. Sempre
pensei que sabia muito de cozinha, porque há anos me dedico a experiências,
pesquisa e a conhecer novas receitas.... E, na realidade, percebi mais uma vez
que a gente sempre aprende coisas novas quando resolve se dedicar a estudos,
mesmo daqueles assuntos que acreditamos ter uma base valorosa.
Depois da primeira página, não
consegui parar tão facilmente de ler o que as apostilas me ‘contavam’. Comecei
a ver que não reparava com clareza na grandeza da culinária como uma inegável
expressão da condição humana, desde a pré-história até os dias de hoje. Parei
para imaginar um punhado de grãos nas mãos e visualizar (tentar) o poder que
tais grãos tiveram e tem para a vida e, o que representaram na evolução dos
homens até os dias de hoje.... Li e percebi o trigo e suas utilizações como a
base da vida...
Esquisito...surpeendente...poderoso!
Por isso, nesse texto de hoje, o
novo conceito de gastronomia faz uma breve viagem da relação do homem e do
trigo: o homem com o pão e a cerveja. Uma evolução com ganhos e perdas.
A História conta a descoberta do
fogo, a feitura de mingaus com o trigo, o acaso da fermentação do mingau
aquecido no fogo....a criação da cerveja, uma bebida de idade tão velha como o
pão. Não há dados precisos de quem veio primeiro: o pão ou a cerveja. Tanto um
como o outro parecem ter surgido na mesma época. Sabe-se, contudo, com certeza,
que quem controlava os grãos era quem detinha o poder. Isso é fácil imaginar!!!
Relatam os livros muitas histórias
sobre a cerveja e o pão e, como eles foram, em certa medida, transformando e
formando as sociedades. No Egito antigo, grandes cervejarias produziam tal
líquido/alimento confiável (já que a água dos riachos era incerta), que servia
também como pagamento aos construtores das pirâmides. A cerveja era uma moeda
importante! Já, para o Império Romano, o trigo tinha no pão o seu símbolo de
alimento preferido para acompanhar o mel e as frutas. Pão e cerveja eram
alimentos determinantes.
A Idade Média foi caracterizada pela
grande diversidade alimentar e, há relatos interessantes da divisão de claro e
escuro da cerveja e do pão, que demonstraram ser um dos tantos catalisadores da
ratificação de classes sociais. Na época, começaram a peneirar a farinha
(deixando de aproveitar fibras e germe do trigo; uma perda nutricional) e descobriram que podiam
produzir um pão mais branco e fofo, que acabou por ser alimento destinado aos ricos;
já o pão com trigo sem tal processo e resultando num produto escuro e com
fibras era para camponeses e trabalhadores (mais rico em nutrientes). O mesmo
aconteceu com a cerveja, quando começaram a secar os grãos e conseguiram produzir
uma cerveja mais dourada, que começou a abastecer preferencialmente as classes
mais abastadas, que deixaram de consumir a cerveja mais escura e a destinaram
como bebida das camadas sociais menos favorecidas.
No começo do Século XX a cerveja
deixa de ser considerada nutritiva para ser denominada de saudável e, a
publicidade e a produção industrial reduzem o sabor e aprimoram a coloração. O
pão passa a ser amplamente produzido de maneira industrial cada vez mais fofo e
branco e menos nutritivo.
Parece que beber cerveja e comer pão
também é viver a história da humanidade. São partes de rituais que foram se
modificando e nos modificando há mais de dois mil anos, em que a comida é símbolo de vida, nutrição, morte e poder.







