Como comentei em texto anterior, com o título ‘empresas + revistas...’, escreverei mais sobre o tema que envolve a pedagogização das revistas. Entendo ser necessária a exposição para chegar até minha pesquisa de mestrado, que envolve estudos sobre revistas institucionais (e como elas podem ou pretendem envolver e ensinar os leitores). Hoje busco explicar sobre o 'gênero' revista. E, como bem sei, em toda a explicação sempre há uma história a ser contada. Aqui vai a minha: Sabem como surgiram as revistas?
Acredito que o fascinante ao ler sobre algumas da muitas histórias acerca do surgimento das revistas nas culturas ocidentais contemporâneas é perceber que toda a incontável indústria editorial atual começou com poucas ideias que foram se reconfigurando no decorrer dos anos. No mundo ocidental, de acordo com pesquisadores, a primeira referência de revista que se tem notícia se chamava Edificantes Discussões Mensais e surgiu, em 1663, em Hamburgo, na Alemanha. Ela parecia um livro, mas com assuntos variados e, teria sido percebida pelos leitores com a mesma função de uma loja – lugar onde é possível olhar e comprar somente o que deseja – ou seja, olhar e ler somente o que se deseja ou interessa. Daí advém o nome “magazine”, originária da palavra árabe al-mahazen, que significa armazém ou depósito de mercadorias variadas. No francês, magazin, além do significado de revista, a denominação também se refere a uma loja de departamentos. Em 1665, surgiu a revista francesa Jornal dos Sábios, um publicação sobre ciências; e, a revista inglesa, denominada Transações Filosóficas. Já em 1668, surgiu uma referência na Itália, denominada Jornal dos Literatos.
Por volta de 1812, surgiu no Brasil a revista As variedades, em Salvador, na Bahia. Ela tinha, assim como as internacionais, um formato de livro, em preto e branco, e publicava assuntos variados com textos sobre costumes, virtudes morais e sociais, algumas novelas, fatos históricos nacionais e internacionais, artigos com estudos científicos e algumas anedotas. Nos anos seguintes, outros estados, como o Rio de Janeiro – com o Patriota –, passam a publicar revistas e ampliam o foco de interesses ao divulgar autores, temas da terra e vários campos do conhecimento humano – Medicina, Engenharia, Direito etc.
Parece que pouco mudou até os dias atuais no que se refere às revistas. Isso porque, percebemos que as revistas continuam a entrelaçar uma mistura de jornalismo, educação e entretenimento. Contudo, parece-me que foi acentuada a busca para a relação com os leitores, no intuito de ir além da transmissão de notícias e diversão, ou seja, que pela experiência da leitura se estabeleça certa identificação entre os leitores e editores. É possível perceber isso ao observar a delimitação de seções e tipos de públicos que as lerão, pois a revista pode focar nos possíveis perfis de seus leitores, proporcionando produtos e serviços que, supostamente, seriam do seu interesse. Seguindo essa ideia, me antecipo ao falar das revistas institucionais, onde o estabelecimento de certa identificação pode ocorrer de forma mais intensa, já que quem edita a revista (instituição/entidade) dirige-se para um público específico e com interesses possivelmente congruentes.
Outro aspecto que pode caracterizar a revista como um gênero é pensar no imediatismo das notícias. O imediatismo está presente nos textos on-line e em jornais (que são substituídos diariamente) é rápido, preciso, porém 'ralo'. Já nas revistas, encontramos a peculiaridade que parece escutar o que o leitor quer, e podem apresentar maior profundidade nos conteúdos, apontar reflexões e opiniões. Com essa característica, me dirijo a um âmbito mais específico, a olhar para as revistas institucionais e o quanto estão imbricadas na produção de valores e racionalidades de segmentos específicos da sociedade, criando e fazendo circular representações diversas sobre a indústria, o industriário, a tecnologia, a educação, a logística, a medicina etc. Assim, pode-se dizer que as revistas funcionam como dispositivos que ensinam e sugerem como os indivíduos devem se comportar, o que devem aprender, onde e para quê.
Neste processo, o sujeito leitor passa a ser mais do que um consumidor, pois, ele passa, também, a ser um ator em meio a uma gama de textos, imagens e cores. Por meio das revistas, os sujeitos têm a possibilidade de aproximação com o que os outros pensam, fotografam, desenham, modelam, etc.; os sujeitos têm, também, por meio das imagens midiáticas, a possibilidade de reforçar, aprender, amenizar ou até criar um ambiente, uma atitude, um modo de ser e trabalhar, por exemplo.
Ainda é possível dizer que o próprio design da revista a diferencia de outros meios. Ora, vivemos numa sociedade que privilegia o sentido da visão, então, a tipologia, o corpo e a cor do texto, a entrelinha, a largura das colunas, as margens, o tipo de imagem e a forma como tudo será disposto na página, são as ferramentas que fazem parte da produção editorial das revistas (tanto textuais como pictográficas). Essas ferramentas podem ser analisadas como representações que criam significados e podem ser consideradas como uma das produções culturais mais eficientes na constituição de representações e identidades. Conforme Hall (2008), as coisas não significam: nós construímos o significado das coisas utilizando sistemas de representação construídos através de conceitos e signos. Assim, pode-se dizer que as revistas têm a capacidade de reafirmar identidades de grupos com interesses específicos, funcionando, algumas vezes, como um ‘chip’ de aproximação a eles.
Para ampliar a importância de pensarmos no poder de representação das revistas, basta observar a grande variedade destes tipos de meios de comunicação na atualidade, sua presença em diversas culturas e junto aos mais diferentes públicos etários – que vão dos quadrinhos à moda, à economia, ao esporte, etc. –, descrevendo, contando, ilustrando e instituindo hábitos, maneiras e costumes. Desta forma, a revista, assim como a mídia em geral, está no âmbito das relações produtivas sociais e põe em circulação a agregação de idéias, que instiga gostos, necessidades, oferece dicas, dá pareceres, (in)forma. Seguindo essa idéia, a revista parece atender a uma necessidade humana que se refere a um processo permanente de reconhecimento em que o leitor se vê/percebe como próprio e diferente dos outros ao ler relatos sobre práticas das pessoas ou da sociedade.
Disponível em: http://www.almanaquedacomunicacao.com.br/artigos/209.html.
Nenhum comentário:
Postar um comentário