quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Relacionamento animal

Uma “das segundas” coisas que mais gosto de falar, ler e escrever é sobre animais, sobre a convivência deles com os seres humanos. E parece-me que pelas leituras e estudos dos dois últimos anos, a partir do encontro com os Estudos Culturais (que colocam a cultura no centro das discussões contemporâneas, entendendo-a como sendo responsável pela própria produção e ordenamento da vida social), por mais incrível que possa parecer, oportunizaram-me ampliar a visão sobre as práticas do ‘relacionamento’ com os animais, ou seja, ver tal relacionamento como uma construção social. Isso, porque, passei a entender a hierarquia histórica dono/animal (agressão, violência, etc.) até a relação atual proprietário/pet (humanização dos animais) como um processo que foi sendo construído e praticado como prática social.

No dia 30 de agosto de 2011, fui até a Expointer para assistir a palestra da Denise Bicca sobre bem-estar animal e manejo com equinos - isto é o que considero como ‘relacionamentos’. Sabem o que é assistir a uma palestra sobre o assunto com quase duas horas e não perceber que o tempo passou? Pois é, assim foi a palestra da especialista. Intitulada por aqueles que utilizam seus saberes como ‘encantadora de cavalos’, a veterinária demonstrou através de vídeos-aula muito sobre relacionamento animais/homem (que consegui fazer, inclusive, um link para lidar com cães; tema que trabalho diariamente). Num resumo para o que vi e ouvi, destaco o comentário de Bicca quando frisou que muitas pessoas ao lidarem com equinos e tem problemas para controlar o animal, dizem que o ‘cavalo é burro’ ou ‘louco’, mas, para ela, o que ocorre é uma desconexão com o animal. Desconexão que acontece somente em resposta à ação ligada a desinformação seguida de agressão do homem. Ou seja, as pessoas ao não entenderem a linguagem do cavalo buscam através da força um comportamento desejado, favorecendo desvios de conduta animal.

Assim, o que acontece com animais ditos problemas é a má condução e entendimentos do homem para o manejo de animais. Ela cita como exemplo que é preciso conduzir os equinos tendo em mente que são animais que convivem em bandos e são ‘presas’ na cadeia alimentar e, portanto esses animais veem, a princípio, o homem como predador e não como um líder. E a liderança é uma condição que deve ser conquistada através do convívio com respeito e disciplina.

Entendo que é um novo entendimento ou (re) construção para a relação animal/homem, em especial no mundo equino, com o princípio da não-violência, que pode oferecer ao tratador e às pessoas que trabalham com tais animais, um convívio produtivo e prazeroso.

Acontece que ao ouvir as palavras da Denise, comecei a pensar nas tantas construções históricas (tidas como verdadeiras) de como um peão ‘gaudério’ deve tratar o cavalo, domá-lo, condizi-lo para dentro de um carroção, enfim, ações feitas através de muita agressão e violência. A palestra de Bicca veio a ratificar o que tenho lido e observado (no trabalho com cães) sobre as práticas no relacionamento homem/animal.

Talvez essa minha percepção se deu porque é um assunto que gosto. É um gosto que vem da infância, já que desde que me reconheço como Denise, codornas, coelhos, periquitos australianos, patos, canários, gatos e cães, faziam parte do meu cotidiano, influenciaram o meu crescimento e a formação de determinados valores. Valores que procurei repassar aos filhos: um construto social familiar na relação homem/animal.

Essas concepções foram se fortificando no decorrer da vida e a interação com animais aumentou. Já como mãe de 3 filhos e cães (especialmente Rottweilers, que se tornaram as grandes e confiáveis babás dos meus filhos) os cavalos se tornaram também presentes. Eles apareceram como participantes ativos na rotina de crescimento dos meus filhos Lucas, Paula e Roberta; carreguei-os na garupa do Lambari, do Maragato e da Paloma, que mais tarde vieram a cavalgar os animais sozinhos. Convivências que ensinaram aos pequenos, algumas noções de respeito pela vida, pelos animais, pelo próprio ser humano, em que a interação pode resultar na amizade sem qualquer necessidade de agressões.

Espero que na atualidade, com palestras como a da Denise Bicca (cavalos) ou Cesar Milan (cães), o ser humano comece a perceber e aprender que um relacionamento positivo e produtivo entre homem e animal começa pelo respeito, pela informação e pela não-violência.

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